Unicos: reprodução e imparidade

Sobre a exposição “Unicos” de Leandro Garcia
Por Vicente Vitoriano (Curador)

Questões relacionadas à originalidade e à reprodutibilidade técnica de imagens foram por demais caras à pauta do modernismo artístico. Na contemporaneidade, uma possível incompatibilidade entre estas questões tem sido resolvida, pelo menos em termos de uma prática, cuja reflexão teórica vem se mantendo tímida, em que as diversas técnicas de gravura assumem privilegiado espaço. A monotipia permite que o gravador exerça a originalidade, esta nem sempre muito reclamada hodiernamente, e “volte” à obra única, impossível de repetição pelo processo mesmo desta técnica de gravura, como o seu próprio nome sugere. O que é matriz e que conserva processos de puro desenho ou pintura torna-se, quando impressa uma só vez, uma imagem absolutamente distinta. A nova imagem pode configurar-se na dependência de acasos, tendo em vista as características do suporte liso da matriz, da espécie de entintamento utilizada e da natureza da superfície impressa, o que coloca o gravador numa situação em que o controle absoluto do resultado torna-se dificultado e dele faz demandas que vão além daquelas exigidas ao desenhista ou ao pintor. O gravador de monotipias, como Leandro Garcia, encontra-se neste imbróglio que envolve um olhar para a história da arte e, mais precisamente, para a pertinência de se estar trabalhando com meios ditos tradicionais. No caso de um artista jovem como ele, o enfrentamento desta situação implica a consciência da necessidade de enriquecimento do debate e da contribuição para a proficuidade de revisões técnico-formais com esta, o que ele faz com competência em sua exposição “Unicos”. Ainda no caso de Leandro, estudante da arte na educação, este seu trabalho tem um significado especial, uma vez que a monotipia se apresenta como um meio facilmente disponível em escolas como as brasileiras, tão carentes em todos os aspectos.
Atuando em suas obras exclusivamente com a monotipia, Leandro Garcia perscruta os meandros desta técnica e atinge os melhores resultados, no estágio em que se encontra seu processo de intensa, quase frenética produção. Para tanto, ele poderia lançar mãos de recursos acessórios de acabamento da obra já impressa como coloração, retoque da variação tonal ou acréscimo de elementos gráficos enriquecedores, como muito bem fez Newton Navarro. No entanto, o artista seguramente confia na eficiência de suas capacidades artesanais em termos de criar gradações convincentes ou contrastes de grande impacto visual, equilibrando o controle do carregamento do pincel e fazendo uso de sua sensível noção de claro-escuro.
A segurança de Leandro também se refere a poder, com as propriedades de suas obras, informar sobre suas preocupações conceituais, seus interesses pelos dramas cotidianos, vividos por uma sociedade que, contraditoriamente, insiste em confiar na infância como promessa de futuros melhores, ao tempo em que submete as novas gerações ao torvelinho de violências de toda sorte e quase que as obriga a voltar-se contra a construção destes futuros. O forte teor expressionista de seu desenho, sem fazer abusos da deformação, muito pelo contrário, tem particular função neste empenho. O potencial poder expressivo do preto e branco reforça o sentimento de inquietação que o faz deambular pelo universo infantil, fazendo-nos observar desde a relação entre um bebê e sua mãe até os desassossegos da adolescência, estes que cobrem uma extensa gama de conflitos que inclui a insegurança com a aparência, a instabilidade dos relacionamentos, inclusive familiares, e o engajamento com o crime.
Embora possa remeter a uma compreensão “sombria” da infância, a série de trabalhos que versa sobre este tema e as demais séries de retratos e a série de brinquedos estão revestidas de cativante teor poético, o que, bem a princípio, deveria reger todo produto artístico. E diz-se poético na acepção lírica da poesia, já que as obras evocam lembranças e sentidos de inocência e mesmo de felicidade.
“Unicos” ainda consta de uma série de retratos em que o artista colhe imagens pessoais jogadas na rede mundial de computadores, retirando-as do recluso, mas massificado nicho de identidade dos grupos de relacionamento, re-personalizando-as mediante a ação artística. Trata-se de uma ação que se aprofunda na contemporaneidade da vida social e amplia a especulação sobre os limites da representação e apresentação das imagens de pessoas. A possibilidade ilimitada de reprodutibilidade das imagens digitais é, assim, inversamente contraída para a unicidade da monotipia. Esta série como que faz um fechamento deste conjunto de obras que é, ao fim, uma inteligente reflexão sobre o próprio homem mergulhado no paradoxo de buscar ser único enquanto se organiza em tribos identitárias e naquele de estar em luta pela sobrevivência de seu planeta/casa ao tempo em que o destrói irreversivelmente.

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